Cinema de Bordas reúne de ‘clássicos’ do VHS a filmes de internet.
Vigilantes aposentados resolvem vestir as fantasias e se reunir depois que um dos integrantes do grupo é misteriosamente assassinado. O roteiro é familiar: “Watchmen”, adaptação de quadrinhos multimilionária lançada no mês passado, segue a mesma linha, mas desta vez estamos a quilômetros de distância de Hollywood. Trata-se do média-metragem “O assassinato da Mulher Mental”, um dos 17 filmes de baixíssimo orçamento que integram a mostra Cinema de Bordas, aberta nesta quarta-feira (21) em São Paulo e em cartaz até o próximo domingo, no Itaú Cultural.
Escrito, dirigido, editado e interpretado por Joel Caetano, o filme de super-heróis brasileiros foi gravado em São Paulo e é uma homenagem aos heróis dos quadrinhos americanos. “Tem o Híper-Homem, que é um Superman brasileiro; a Mulher Mental, que tem o poder de ler a mente e da telecinese, e o Bruma, que anda nas sombras“, enumera Caetano, que é formado em Rádio e TV, já produziu 11 curtas independentes e conseguiu envolver a mulher, a cunhada, amigos e até o sogro e a sogra nas brincadeira. “Eles já foram atores na década de 60. Então juntamos a fome com a vontade de comer“, explica.
Gravado em São Paulo, com um orçamento de R$ 800, efeitos especiais produzidos no computador e divulgação praticamente toda na internet, “O assassinato da Mulher Mental” é um bom exemplo do que um dos curadores da mostra, Gelson Santana, chama de terceira onda do cinema de bordas. “É uma geração nova, que faz tudo em digital, usa o YouTube e não tem grandes pretensões de mercado”, explica o professor de mestrado em comunicações da faculdade Anhembi Morumbi.
Clássicos da borda
Foi na mesma faculdade que se realizou, em 2008, a primeira edição do festival. Naquela ocasião, porém, só entraram os “clássicos”, nas palavras de Santana, que organiza a mostra junto com a também professora Bernadette Lyra. Os clássicos, geralmente gravados em fitas VHS e que também fazem parte da mostra atual, incluem nomes como os de Simião Martiniano, camelô de 70 anos que há décadas produz e vende seus filmes de ação no mercado do Recife, Seu Manoelzinho, que já contabiliza “mais de 50 filmes” todos rodados em sua cidade natal, Mantenópolis, interior do Espírito Santo, e Júnior Castro, de Manaus, autor da trilogia “Rambú”, o Rambo da Amazônia.
Em comum, explica Santana, eles têm a característica de explorarem aspectos próprios das comunidades onde vivem seus realizadores. “Faço para mostrar aqui mesmo, no município. A gente arranja um projetor emprestado com a prefeitura e mostra o filme na praça e nas cidades vizinhas”, revela Seu Manoelzinho, 50, que desde que ficou famoso na região por conta de seguidas reportagens na TV, diz que não tem percebido mais a mesma camaradagem da parte dos concidadãos mantenopolitanos. “Antigamente os atores iam porque gostavam. Agora, depois que comecei a aparecer muito na televisão, os atores já estão cobrando de mim o dia de trabalho. Hoje eles cobram R$ 30 por dia, e ainda querem o lanche e a comida lá“, reclama o diretor de “Rico pobre”.
Invasão de zumbis
Mais caro da mostra (R$ 50 mil), o terror trash “Mangue negro” também carrega traços do “comunitarismo” detectado por Santana e Lyra nas produções do cinema de bordas. Dirigido pelo artista plástico Rodrigo Aragão e rodado literalmente no quintal de sua casa, o longa conta a história de uma comunidade de pescadores e catadores de caranguejos de uma aldeia em Guarapari (ES) que é atacada por uma onda de zumbis. Inspirado em produções de terror como “A madrugada dos mortos” e “A hora do espanto”, o longa 100% independente é talvez um dos exemplos mais bem-acabados e premiados da seleção.
“O sucesso é que fiz um filme muito para mim. Sou fã desse gênero ’splatter’ [filmes de terror com doses generosas de sangue e objetos cortantes] e coloquei tudo o que eu tinha vontade de ver”, explica Aragão, enumerando entre os caprichos o uso de 700 litros de sangue artificial, machados e “muitas, muitas” cabeças degoladas.
Os fãs de zumbis, aliás, terão um prato cheio (de vísceras?) na programação do festival. Mais comum entre os realizadores da geração atual, o gênero ressurge em “Era dos mortos”, do mineiro Rodrigo Brandão, “Zombio”, do catarinense Petter Baiestrof, e o sugestivo “A capital dos mortos”, de Tiago Belotti, que transforma as desertas avenidas de Brasília em terreno ideal para o caminhar dos mortos-vivos.
“O cinema brasileiro é muito centralizado em nossas mazelas reais – tráfico, policial corrupto, pobreza, seca no Nordeste… Não temos muito o prazer de ver pessoas brasileiras passando por coisas incríveis como uma cidade sendo explodida por alienígenas ou como palco para as aventuras de um Superman”, sugere Aragão. “São coisas que eu adorava quando criança. E acho que tem uma geração nova que está começando a produzir, os festivais estão crescendo. Estamos no início de uma coisa muito bacana”, avalia.
Mostra Cinema de Bordas
Quando: de 22 a 26 de abril
Onde: Sala Itaú Cultural – 247 lugares (Av. Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô, tel.: 11 2168-1776/1777)
Quanto: entrada franca (ingressos distribuídos com meia hora de antecedência)
Fonte: http://www.g1.com.br/