“Monstra” em Fortaleza expõe as muitas pátrias da HQ independente

Por Claude Bornél

 

Bandes dessinées. Fumetti. Tebeos. Mangá. Muñequitos. Comics. Comiczeichnungen. Historietas. Banda desenhada. Diferentes formas de dizer, ao redor do mundo, o que no Brasil conhecemos como histórias em quadrinhos. Diferentes propostas visuais e narrativas daquilo que se denomina Comix, termo usado para definir quadrinhos independentes. Aqueles que, na maior parte das vezes, fogem do conhecimento até de quem muito curte gibis, mas que podem ser vistos com riqueza de detalhes até fevereiro de 2009 logo ali, no Centro de Fortaleza.

Estamos falando aqui da “Monstra Comix”, exposição organizada pelo Núcleo Aetz Produção Cultural e que ocupa os quatro andares do Sobrado Dr. José Lourenço, à rua Major Facundo, 154. A exposição foi inaugurada dia 22 de novembro, com a proposta de ser um recorte da produção independente contemporânea mundial de quadrinhos.

O quadrinho independente surgiu nos anos 60 e fez desta mídia uma expressão artística. Ao contrário do que acontecia até a década anterior, quando os gibis não eram mais que simples meios de entretenimento. A “Monstra Comix” ajuda a contar um pouco dessa história com uma grande riqueza de material. A entrada para a exposição é grátis. Mas mesmo que o ingresso fosse cobrado, não teria dinheiro que pagasse a qualidade do acervo reunido.

Ao todo são 44 artistas representados por trabalhos originais e pranchas ampliadas. Do total, sete são cearenses, 17 de outros Estados brasileiros e 20 de países como África do Sul, Bélgica, Estados Unidos, Finlândia, França, México e Suíça. Praticamente todos os artistas estrangeiros participantes jamais tiveram seus trabalhos publicados no Brasil. Não é por acaso, então, que esta é a maior exposição de HQ já realizada em Fortaleza.

E além de promover um intercâmbio entre autores de quadrinhos independentes de diferentes nacionalidades, a exposição reserva espaço para alguns destaques. Um deles é o cearense Marcus Francisco, já falecido, cujos trabalhos fazem parte da mostra (ou melhor, Monstra) e sua rara publicação “Tipo Blocomagazine”, está sendo relançada no evento.

Três artistas contam com salas especiais dedicadas às suas obras. O carioca Alberto Monteiro, que é considerado o mais influente nome da produção independente nacional dos anos 90; o desenhista gaúcho Rafael Sica, por sua maneira singular de produzir tiras; e o português José Carlos Fernandes, autor da premiada série A Pior Banda do Mundo.

Outro grande mérito do evento é a disposição de lançar publicações independentes durante o período em que a exposição estiver aberta ao público. Destaque para o cearense Saulo Tiago, estreante em termos de produção de quadrinhos que acaba de lançar a publicação Revólver. Para obter mais informações sobre como lançar seu material, entre em contato com o Artz através do e-mail nucleoartz@gmail.com.

 

E quem pensa que a “Monstra Comix” termina aí, se engana. E muito. Os responsáveis pela produção e curadoria (Weaver Lima, Franklin de Oliveira e Érica Zoe, do Núcleo Artz procuram trazer atividades paralelas para agitar ainda mais a exposição. Entre as quais, palestras e debates com autores de quadrinhos e mostra temática de filmes. Confira a seguir o superanimado bate-papo que a Seqüencial teve com os responsáveis pela exposição.

Seqüencial – O que é a “Monstra Comix”?

Franklin de Oliveira – A exposição “Monstra Comix” é uma continuação natural dos trabalhos desenvolvidos por nós do Núcleo Artz, de valorização do trabalho autoral. A exposição faz parte de um projeto maior que demos início nesse final de ano (2008), o projeto Monstra – que se divide em vários eventos (exposições, encontros, oficinas, festas, feiras etc)

Weaver Lima – A “Monstra Comix”, especificamente, é uma exposição que exibe um pouco da produção contemporânea de histórias em quadrinhos. Trabalharam na seleção das HQs 3 pessoas: eu (Weaver Lima), o Franklin de Oliveira e a Érica Zoe. Selecionamos autores que se destacam dentro da cena independente dos quadrinhos.

Érica Zoe – São artistas que se utilizam do meio das HQs para expressar sua visão de mundo.

S – Como surgiu a idéia de montar a exposição “Monstra Comix”? Quanto tempo demorou para organizá-la?

WL – O convite partiu da equipe do Sobrado Dr. José Lourenço. Selecionamos o material e montamos toda a exposição em duas semanas. Isso claro, só foi possível nesse tempo porque a gente já tinha o material em mãos e trata-se de uma área que temos conhecimento. Mas a “Monstra Comix” vai mudando, aos poucos vamos acrescentando coisas e lançando publicações como parte da programação da exposição.

FO – Podemos dizer que a exposição já estava montada, no sentido de que estamos sempre observando o q está sendo produzido, vamos catalogando e criando “listas” com os nomes mais interessantes que encontramos. A “Monstra Comix” teve que ser montada nesse pouco espaço de tempo para abrir junto com a Bienal Internacional do Livro do Ceará. O difícil foi decidir quais entrariam e quais teríamos que deixar de fora. Mas era conseguir realizar nesse tempo ou deixar para o ano que vem… Esquecemos o que era dormir e entregamos tudo a tempo.
EZ – A exposição vai ficar em cartaz até fevereiro de 2009, portanto até lá teremos muitos acréscimos. É bom ressaltar que a nossa idéia é que a “Monstra Comix” aconteça sempre e que viaje pra outros locais também, já que trata-se de uma exposição de intercâmbio.

S – Qual é o principal objetivo da exposição?

EZ – Trabalhar um intercâmbio entre artistas ligados a HQ…

WL – Divulgar artistas que produzem boas histórias em quadrinhos. Divulgar artistas que buscam uma forma própria de produzir histórias em quadrinhos e conseguem bons resultados em suas tentativas.

FO – Desde 2005, quando realizamos o evento “Panorama Nona Arte”, no Centro Cultural Dragão do Mar, buscamos identificar os produtores e repassar essa informação, principalmente para aqueles que não tem contato com histórias em quadrinhos. Nesse evento (PNA) focamos na produção de HQs no estado do Ceará. No ano seguinte, já dentro da Bienal do Livro, criamos uma programação exclusivamente dedicada às histórias em quadrinhos e à ilustração: o “Festival Internacional de Ilustração” (leia mais em http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/623536.html e http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/619564.html), que contou com a participação de Fábio Zimbres (SP>RS), Jean Galvão (SP) e do português José Carlos Fernandes e iniciou o processo de intercâmbio com artistas de outros estados e países. A exposição “Monstra Comix” continua esse trabalho de intercâmbio entre artistas e pretende apresentar até mesmo para os já iniciados em HQs, diversas propostas e estilos de se fazer histórias em quadrinhos, focando principalmente nos artistas independentes, e temos como artistas independentes aqueles que buscam formas alternativas, não apenas de impressão e comercialização de seus trabalhos, mas principalmente de concepção e realização de idéias.

S – Quantos países estão representados na exposição? Quais são os destaques em termos de autores e trabalhos?

FO – Dentro dessa edição da “Monstra Comix”, três artistas ganharam salas especiais: Alberto Monteiro (RJ) considerado o mais influente nome da produção independente nacional dos anos 90; Rafael Sica (RS), desenhista que se destaca na atualidade por sua maneira singular de produzir tiras em quadrinhos; e José Carlos Fernandes (Portugal) autor de A Pior Banda do Mundo, premiada série que colocou o nome do artista entre os melhores autores de histórias em quadrinhos da atualidade.

WL – Até o momento, são 44 artistas de 11 países (Brasil, Portugal, Argentina, Espanha, México, França, Bélgica, África do Sul, EUA, Finlândia, Suíça) É difícil destacar um ou outro artista da exposição porque todos os selecionados são nomes importantes da atual produção mundial de HQs. Muitos, apesar de não tão conhecidos, são artistas que possuem obras muito bem resolvidas, que os destacam como grandes artistas além dos limites do meio das HQs. Quando a gente fez a seleção da exposição não procuramos selecionar artistas por países. A seleção foi feita priorizando a qualidade das HQs. Em decorrência do espaço físico, muita coisa ficou de fora. A “Monstra” é uma pequena mostra do que, na nossa opinião, existe de mais interessante no atual cenário atual da HQs.

EZ – No momento. (risos)

S – O que os visitantes da exposição vão encontrar sobre quadrinhos produzidos no Ceará?
FO – Separamos uma das salas para expor trabalhos realizados pelo Núcleo Artz, nem todos os trabalhos são histórias em quadrinhos, mas todos se utilizam da linguagem e da influência das HQs como suporte conceitual nas imagens expostas.
EZ – A exposição exibe trabalhos do Marcus Francisco, já falecido. Vamos tentar relançar em janeiro de 2009 a sua publicação Tipo blocomagazine que é uma raridade da história do quadrinho cearense…

WL – Tem também o Saulo Tiago, que é da nova geração de desenhistas de Fortaleza. É um cara que só lançou um zine, até o momento, mas seu trabalho possui uma forte carga pessoal que o destaca como uma das grandes promessas das HQs no nosso estado.

S – A “Monstra Comix” é a maior exposição sobre quadrinhos já realizada em Fortaleza. Qual é o alcance que uma exposição como esta pode ter? Apenas quem curte quadrinhos ou um público mais amplo, ainda não iniciado na nona arte?

WL – A “Monstra Comix” exibe obras de artistas que utilizam o meio das histórias em quadrinhos para se expressar. é uma mostra de arte que discute muitas questões: ganância, fome, religião, filosofia, amor, costumes… São temas universais que interessam a todos.
FO – Nosso objetivo sempre foi esse, não delimitar para apenas um grupo específico. O que esta sendo exposto em primeiro lugar são idéias, observações sobre o mundo, há quem goste, há quem não goste. Há também aqueles não conhecem, que não sabiam que idéias como aquelas poderiam ser contadas através de quadrinhos.

EZ – São HQs pra quem tem estômago. Não são HQs pra menininhas mimadas… (riso geral)

S – De que forma a “Monstra Comix” pode contribuir para o público ver os quadrinhos de uma forma diferente, desprendendo-se do quadrinho comercial?

FO – Esperamos que o contato com tantas formas variadas de se usar a linguagem das HQs já sirva pra quebrar a regra de que quadrinho só pode ser feito de uma forma ou de outra, que só se pode abordar tal tema etc.

S – Acredita que a exposição pode evoluir para uma Bienal Internacional de Quadrinhos, como a que foi realizada no Rio de Janeiro em novembro de 1991? Por que?
WL – Aí no caso seria regredir… (risos)

FO – Não é nosso objetivo ter uma Bienal Internacional de Quadrinhos e sim ter um evento de cultura pop, que abrange sim as histórias em quadrinhos, mas não se restringe a elas.

EZ – As HQs precisam dialogar com o mundo, não é? As HQs que estão na “Monstra Comix” fazem isso.

 WL – Já acontecem vários eventos de quadrinhos no Brasil seguindo o formato dos eventos de quadrinhos que acontecem no mundo (convenções). Com a “Monstra Comix” queremos ser uma alternativa a mais. A proposta da Monstra é ser a Monstra mesmo 🙂

S – Qual é a diferença entre o quadrinho independente e o quadrinho comercial (os Marvels e DCs)?

WL – Nos quadrinhos comerciais escritores e desenhistas produzem produtos que tem que se adequar a regras e modismos para continuar a vender. Tudo é pensado em função do lucro financeiro. É impossível um artista trabalhar dentro da indústria comercial de quadrinhos. Quando eu cito artista, estou referindo-me a alguém que tem embasamento cultural e sabe o que é ser um artista na atualidade. A produção independente parte (em sua maioria) do desejo de se expressar artisticamente. Os artistas que trafegam nesse segmento, nem sempre conseguem lucro financeiro com o seu trabalho, mas são responsáveis por mudanças significativas para o desenvolvimento e o reconhecimento das HQs enquanto arte.
FO – O termo independente não inclui o zineiro que escreve e desenha suas próprias histórias do Superman para tentar entrar na DC Comics.

 
EZ – Tem muita gente que edita suas próprias revistas, mas segue fórmulas das HQs comerciais. É um tipo de gente que se vende como independente, mas o que estão a produzir não representa o espírito da cultura independente.

S– Como você define o quadrinho independe no Ceará? De que forma ele se insere como manifestação cultural da rica cultura do Estado?


WL – No Ceará não existe uma tradição de quadrinho independente que possa definir algo. Mesmo se existisse uma tradição, tendo como base a nossa produção em outras áreas artísticas (musica, teatro, audiovisual etc) não seria tão fácil ser definida. A produção artística cearense tem como sua principal característica: “cada um, cada um”. O formato “história em quadrinhos” é uma categoria artística como outra qualquer (literatura, audiovisual, musica, teatro, dança, artes visuais) que artistas utilizam para se expressar. Infelizmente, apesar de existir bastante gente produzindo quadrinhos no Ceará ainda não há incentivo específico para a área de quadrinhos em nosso estado. O motivo disso é a falta de conhecimento sobre essa área por parte dos responsáveis pelo incentivo as artes no nosso estado.

EZ – …Com falta de perspectivas, poucas pessoas dão continuidade à produção de HQ… No Ceará existe uma produção invisível que fica restrita a um publico segmentado, que vai se renovando através de desenhistas que surgem e somem rapidamente…

WL – A idéia do quadrinho independente tem se espalhado pelo mundo e isso vêm gerando uma série de HQs que apresentam outras propostas, criando um campo de discussão mais rico dentro das HQs. É claro que sempre vai existir quem prefira os enlatados. Mas, felizmente, agora podemos dizer que já existe um público que não quer mais os enlatados. É um processo lento, mas as coisas estão mudando.

FO – A “Monstra Comix” serve pra mostrar que um quadrinho de qualidade independe do local onde é feito.


Autores que integram a “Monstra Comix”:

>>> Everton (SP > CE), Érica Zoe (CE), Franklin de Oliveira (CE), Marcílio S. (CE), Marcus Francisco (CE), Saulo Tiago (CE), Weaver Lima (CE).

>>> Alberto Monteiro (RJ), Allan Sieber (RS > RJ), André Kitagawa (SP), Caco Galhardo (SP), Cavalcante (RJ), Clayton (PR), Fabio Zimbres (SP > RS), Guazelli (RS), Jaca (RS > SP), LAW (RS), Lourenço Mutarelli (SP), Melius (DF), MZK (SP), Odyr (RS > RJ), Paulo Batista (SP), Rafael Sica (RS), RHS (PR).

>>> Aurelie Guillerey (França), Cizo & Winshluss (França), Conrad Botes (África do Sul), Daniel Clowes (EUA), Gully (México), Hans Nissen (Finlandia), Jorge Alderete (México), José Carlos Fernandes (Portugal), Liniers (Argentina), Luís Lázaro (Portugal), Maria Colino (Espanha), Martinez (Espanha), Matt Groening (EUA), Paco Alcázar (Espanha), Phillipe Vuillemin (França), Remi (Bélgica), Stephane Blanquet (França), Thomas Ott (Suiça).

Serviço:
Exposição “Monstra Comix”
Local: Sobrado Dr. José Lourenço, à Rua Major Facundo, 154 – Centro – Fortaleza/CE
Entrada: Grátis
Funcionamento: De terça a sexta, das 9h às 19h; aos sábados, das 10h às 19h; e aos domingos, das 10h às 14h
Aberta ao público até fevereiro de 2009

 

Fonte: O Povo

2 comentários sobre ““Monstra” em Fortaleza expõe as muitas pátrias da HQ independente

  1. Já fui a mostra duas vezes e é muito boa recomendo… sou zineiro aqui de fortaleza e faço parte de um clube de quadrinhos o Mangaka EX³, temos um blog e nos reunimos quase sempre seria muito legal fazer troca de experiencias! Valeu!

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    • Olá Macilio, muito obrigada pela visita o Zine Brasil e pelo comentario, qual é o seu zine? Visitei o link do blog que você colocou aqui, existe algum outro? Seria legal esta conchecendo sua revista, não deixe de entrar em contato por e-mail também ok? Abração!

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