Artigo: “O livro sobreviverá, o jornal, não”

Por Ziraldo*, Jornal do Brasil

 

RIO – Pode escrever aí a sentença definitiva: “O livro sobreviverá, o jornal, não”. Explico: estou falando de forma e não de conteúdo. Mas é bom manter a frase assim, dura, direta, de imediata compreensão e cheia de certeza. Explico mais: os futuros suportes para a informação e a notícia sofrerão transformações inimagináveis para nós. Em matéria de jornal, o que existe hoje, impresso, vai acabar.

 

Não fui chamado para falar do futuro do livro mas para dar meu palpite sobre o que acho que vai acontecer com o jornal – acho que é jornal, não a imprensa – preciso usar o livro como referência.

 

Questionar sobre o futuro da imprensa parece-me o mesmo que questionar o futuro do ser humano no planeta. Nós dois, o ser humano e o planeta, assim como os dinossauros, um dia, vamos desaparecer da Terra: esse será o fim do nosso futuro. Toda a discussão sobre assuntos dessa natureza, até que o cataclisma final aconteça, será uma discussão sem sentido – podemos apenas nos deter a detalhes. Falemos pois do fim do jornal, que é o que na verdade interessa aqui. Porque imprensa é uma coisa mais ampla, inclui uma quantidade infinita de suportes para que se exerça. Tanto que, até há algum tempo, ainda a dividíamos em escrita e falada! E abríamos logo a velha e elegante chave-colchete para subdividir as duas categorias nas suas diversas conformações.

 

A imprensa, meus amigos, vai durar enquanto o ser humano durar e seu futuro é este: cada dia mais, formas tecnológicas – que aprimoram sua função – surgirão. E pronto. O ser humano vai precisar sempre saber das notícias, estar informado, seguir esta ou aquela opinião, concordar com uma ou com outra análise. Discutir o futuro da imprensa, penso, será discutir formalidades (de forma).

 

Agora, voltemos ao que interessa: o futuro do jornal. Não é isso, ao fim e ao cabo, que está sendo proposto para a discussão? Ou teremos que discutir aqui, também, o futuro da televisão e da internet como veículos de imprensa?

 

Voltemos, então, à referência que faz falta ao meu raciocínio. Considero o livro o mais perfeito objeto para uso humano que foi criado. A evolução da humanidade, até os dias de hoje, dependeu totalmente da possibilidade do seu consumo, que passou a ser em larga escala a partir da invenção do tipo móvel, o achado decisivo de Gutenberg. A literatura, a poesia, a expressão gravada do pensamento humano acharam, no livro que faz o mar, seu veículo ideal.

 

Não creio que o ser humano vá deixar de contar histórias, para fazer literatura ou para procurar seu próprio entendimento; não creio que o ser humano vá abrir mão, ainda que no mais tecnológico dos mundos, do insopitável convívio com a poesia; não poderemos nunca viver sem a troca de impressões sobre nós mesmos, a humanidade vai ter, sempre e permanentemente, a necessidade de se explicar. Não vejo onde poderemos vir a gravar todas as palavras que tornam possíveis o atendimento a essas necessidades humanas, que não seja no livro. Vamos ter que perder, de vez, o sentido do tato, do olfato e da visão para abrir mãos do convívio com o livro do jeito que o conhecemos.

 

Acredito que nossos olhos não secarão sua lágrima e só o livro há de guardar a mancha de sua pequena queda diante do que foi lido em um poema ou em um conto. Não creio que, antes de nosso desaparecimento total, venhamos a nos robotizar a ponto de não buscar de novo a página onde uma violeta foi guardada. É certo que já passamos a época áurea do livro como objeto supremo. Houve um momento da História que todas – todas – as pessoas letradas do mundo liam livros. A primeira edição de Don Quixote não teve mais que mil exemplares e, em menos de uma década, toda a Europa dava notícia de suas desventuras.

 

Proporcionalmente à população que sabe ler, lê-se muito menos hoje em dia e, a cada dia, vamos ver menos livros nas mãos do ser humano. Mas ele não morrerá. Creio.

 

Quanto ao jornal – esse que está aí – cedo morrerá. Primeiro, ele já começou a diminuir de tamanho: sete colunas, formato berliner… A necessidade de informar-se do ser humano, que o jornal hoje atende, será imediatamente suprida com outros hábitos: acordar de manhã, apertar um botão e o jornal vai estar no teto ou na parede de seu quarto, coluna por coluna; vai estar no visor do seu celular; vai estar na sua sala, ao toque de um botão, quando do seu regresso ao lar. Não haverá notícia que não esteja, em um segundo, ao seu alcance.

 

Alguém poderá me perguntar: e as análises? Os analistas e cronistas do jornal, o jornalista cuja opinião interessa ao leitor, estes já estão se mudando para a internet, com seus blogs poderosos. Com os quais o “leitor” poderá interagir imediatamente. Tudo isto mudará o teor da informação – o filósofo Marshall McLuhan já disse isto há décadas – mas não mudará a função da imprensa.

 

Por outro lado, os que fabricam e escrevem os jornais dormem com o inimigo: toda a inovação tecnológica, cuja notícia pode dar lucro, tem prioridade sobre a notícia do livro. Acontece que só quem lê e pode vir a gostar de ler, pode vir a ler jornais. Mas eles – os jornais – não se preocupam em conquistá-los.

 

*Cartunista e escritor.