Lourenço Mutarelli participa de bate-papo em BH

Quadrinhista, escritor, dramaturgo e colaborador de filmes é fã de Kafka e gosta mesmo de contar histórias

O paulista Lourenço Mutarelli, de 47 anos, é um artista singular. Levam a assinatura dele nove álbuns de histórias em quadrinhos – alguns, clássicos da produção nacional – e seis celebrados livros (contos, novelas e romances), além de peças de teatro. O mergulho na literatura surgiu da desistência de ganhar a vida com as HQs. Os textos desse desenhista atraíram a atenção de cineastas. Em 2006, Heitor Dhalia levou para as telas O cheiro do ralo, com Selton Mello no papel do amoral dono de um troca-tudo. Depois veio Natimorto, filme de Paulo Machline. Agora o ator Sérgio Marone quer pôr Jesus Kid na tela.

Esta noite, Lourenço Mutarelli participará do projeto Ofício da palavra, no Museu de Artes e Ofícios. A proposta do escritor e desenhista é um encontro informal, com ampla participação do público de BH. “O bom é a troca. Vou tentar desmistificar algumas coisas, como a ilusão de ser escritor, de ter livro filmado e o glamour do ofício”, provoca. Avisa que trabalha duro, nem sempre em projetos que gostaria. “Há, realmente, momentos em que você vive coisas muito especiais. Mas são detalhes. Talvez um mecânico, quando trabalha com dedicação, tenha momentos de mais recompensa”, suspeita.

Mutarelli nunca imaginou que seu trabalho ganhasse o rumor que tem hoje. Até porque foi difícil ver os álbuns publicados depois de receber vários nãos de editoras que consideravam aquelas HQs estranhas. A solução foi publicá-las por conta própria, fazer edições com pequenas tiragens – em alguns casos, xerox distribuídos pelo próprio autor.

“Quadrinhos dão muito trabalho, são 10 horas por dia. Queria me aposentar, mas não consigo. Tenho de trabalhar para pagar as contas”, afirma Mutarelli. Mesmo assim, eles dão prazer: “De alguma forma, é tempo para ficar comigo. Momento contemplativo, quase religioso”. O autor conversou com a reportagem às vésperas de entregar o novo trabalho (prometido para ontem) à editora Companhia das Letras. Quando meu pai encontrou o ET fazia um dia quente chegará às lojas até outubro.

A nova história não tem diálogos – “que disseram ser o meu forte”, comenta. É só narração, na primeira pessoa. O álbum foi dedicado a um vizinho de bairro, o escritor Marçal Aquino, também às voltas com a conclusão de um trabalho. “Marçal dizia que terminar um livro é mistura de alívio e frustração. No meu caso, é só alívio, porque não queria fazer a história. Hoje, gosto muito mais de escrever que de desenhar”, conta Mutarelli.

Com literatura, garante ele, é possível criar com mais força histórias em que alguém acredite e mergulhe. “Artista é muito parecido com mágico, cria ilusão de realidade”, observa.

Palco

O autor gosta mais ainda de teatro, por lhe permitir registro ainda mais experimental. “Ver a palavra escrita se tornar etérea, na boca de um ator, é uma experiência incrível”, garante, sem esconder a vontade de dirigir. “Adoro quando você está assistindo a algo e se esquece de você – isso é raro no teatro. Esta é a mágica: você se ausentar de seus valores para absorver o que te é apresentado”.

O encanto com a literatura tem justificativa: foi ela que projetou o trabalho de Lourenço Mutarelli. O primeiro romance dele, O cheiro do ralo, além de ser bem recebido, virou filme. Um grupo teatral queria montá-lo, mas não foi possível, pois já estava vendido. O escritor, então, entregou para a Cia. da Mentira sua primeira peça, O que você foi quando criança.

“Gosto muito de cinema, mas é difícil manter a autoria nesse contexto. É brinquedo caro, nada simples, de muita gente”, observa. Mutarelli fica satisfeito em ver suas histórias na tela grande – inclusive, foi ator de alguns filmes. “Mas vejo tudo com distanciamento”, garante.

Paulistano da gema

Lourenço Mutarelli tem ambientado suas histórias em bairros – mais exatamente na paulistana Vila Madalena, onde nasceu e mora. Mas o Centro da capital paulista é o cenário por excelência das tramas dele. Trata-se de lugar de passagem, com encontros, dramas humanos e diversidade de tipos – dos excluídos a executivos. “Todos vaidosos, pretensiosos e iludidos com o fascínio dessa abstração que é o dinheiro. Os menos iludidos são os desiludidos. Essa situação me hipnotiza. Mais que contador de histórias, sou observador do ser humano caótico nesta minha cidade caótica – mistura também tumultuada de sentimentos e emoções”, afirma.

“Minha obra é a mistura da época que vivi, do que li, assisti e provei”, resume Mutarelli. Ele estudou em colégio de padres, na época da ditadura militar. “São mundos ameaçadores. Disso ficou o peso de sentir, mas sem a capacidade de entender meus sentimentos”, observa. O primeiro autor com quem se identificou foi Kafka (A metamorfose). “Depois descobri Machado de Assis e Dostoievski, que, junto com Will Eisner, me levaram a querer contar histórias. Eles me deram o gosto pela leitura”, recorda.

“Provei de tudo”, afirma Mutarelli sem entrar em detalhes. “Hoje, como muita comida mineira”, acrescenta, rindo. Fã de cinema, na videoteca do pai descobriu Federico Fellini. O filme As três coroas do marinheiro, de Raoul Ruiz, foi marcante para ele. “Tudo alimenta e alimentou meu trabalho. A solidão também. Tudo que vivenciamos projeta fantasmas, mesmo que não percebamos”, conclui.

A OBRA

Quadrinhos – Transubstanciação, Desgraçados, A confluência da forquilha, Eu te amo Lucimar, Sequelas, O dobro de cinco (quatro volumes), Mundo pet, Caixa de areia e Quando meu pai viu um ET fazia dia quente (previsto para este ano).

Teatro – O que você foi quando criança, Mau-olhado, Deus e o cachorro, Uns e outros e Arremedo. Os textos estão reunidos no volume Teatro de sombras (Editora Devir).

Livros –
O cheiro do ralo, Natimorto, Jesus Kid, A arte de produzir efeitos sem causa, Miguel e os demônios, Nada me faltará e Amores expressos (previsto para o ano que vem).

OFÍCIO DA PALAVRA

Bate-papo com o desenhista e escritor Lourenço Mutarelli. Nesta terça-feira, 31, às 19h30. Museu de Artes e Ofícios, Praça Rui Barbosa, s/nº, Centro, (31) 3248-8600. Entrada franca.

Fonte: Divirta-se  – Walter Sebastião – EM Cultura