Zine Brasil Entrevista Eduardo Schloesser, autor de Zé Gatão.

Acredito que meu primeiro contato com o trabalho de Eduardo Schloesser, foi com o lançamento da Biblia em Quadrinhos, nesta edição, Eduardo ilustrou duas histórias, a “Eles o chamam de Sansão” e “Davi e Golias”, e já nessas HQs foi possível conferir a qualidade do trabalho do artista, sua mudança de estilo em cada HQ, visando fazer cada trabalho com qualidade, o que deve ser objetivo de um verdadeiro profissional dos quadrinhos.

Mas foi no evento Melhores da PADA, onde o mesmo lançou a graphic Pada, “Zé Gatão” que tive o prazer de conhecê-lo e conversar um pouco com ele, que se mostrou extremamente humilde, atencioso, e muito divertido.

A entrevista abaixo foi realizada pouco tempo depois do evento, a mesma revela não apenas o belo trabalho desse artista dos quadrinhos nacionais, como também demonstra através de suas opiniões e curiosas historias que nesse meio é preciso ter ainda mais profissionalismo que geralmente se pensa.

Espero que aprecie! Boa Leitura!

A velha pergunta que não pode faltar, quando começou seu interesse por quadrinhos?

Antes mesmo de aprender a ler. A lembrança mais antiga que tenho dos quadrinhos foi um gibi da Disney, onde os protagonistas eram 000 e Pata Hari. Mas eu não sabia disto na época. Era um menininho magro num canto qualquer de São Paulo. Um tanto assustado com tudo, aqueles patos causaram em mim uma forte impressão. Depois, meu pai me deu aquela primeira revistinha da Mônica, Logo após foram os super-heróis, sobretudo Marvel e, claro, Tintin. Mas o que me fez ter vontade de desenhar quadrinhos foi o Spirit, do Will Eisner, mais especificamente a historia Gerhard Schnoble. Em seguidas as edições da revista Kripta e da Heavy Metal moldaram o meu gosto pelo terror e fantasia.

Quando você criou o Zé Gatão?

O personagem foi criado no início do ano de 1992. Na verdade, uns dois anos antes eu criara um protótipo deste gato para umas estampas para camisetas em situações cômicas, mas nunca pensara nele como um personagem de HQ, até que ele caiu como uma luva para o projeto que estava desenvolvendo. Naqueles dias estava vivendo uma situação difícil, então os quadrinhos foram uma forma de desabafar, colocar para fora o que estava sentindo. Como eu não tinha nenhuma experiência com arte sequencial, obviamente era uma coisa bem diferente do que se vê hoje.  

3- Como você percebe a reação de leitores as suas obras, como o Zé Gatão, que foge do herói mocinho, sendo antropomorfo e fazendo uso de uma boa dose de violência?

Usei antropomorfos por três motivos:

1- Minha forte ligação com mundos fantásticos.

2- Animais fabulosos são metáforas poderosas e eu poderia transmitir uma visão de sociedade bem particular, mas inquietantemente comum a todos.

3- Fugir dos estereótipos de heróis e anti-heróis tão comuns nos quadrinhos.

A reação das pessoas não foi má, mas existe até hoje muita relutância em relação às cenas de sexo, muito mais que as cenas de violência. Olhando hoje para o passado eu admito sim que queria provocar um choque, dar uma sacudida na moçadinha que lia gibis bem comportados. Não foi um tiro no pé, admito que limitei o público, mas quem entendeu a proposta, permanece como um seguidor fiel, e pra mim o que vale não é o número de fãs, mas a qualidade deles.

Conversando durante o evento da PADA, você chegou a comentar que seu personagem nasceu num momento bem “raivoso” de sua vida, e que por isso ele era tão Melancólico nas HQs que o lançaram, você ainda guia as HQs do personagem sob esses mesmos sentimentos? Ou já nesse novo álbum lançado é possível o leitor notar mudanças no perfil do personagem?

Zé Gatão deveria sim refletir meus sentimentos, sempre. Ele serve como um porta-voz, aliás, não só ele, mas muitos personagens que aparecem na narrativa tem um pouco de mim, acredito que esta é a única forma de torná-los críveis para o leitor, embora se tratem de animais humanizados. A maioria das histórias é autobiográfica, só acrescento um pouco de ação e fantasia para dar o tempero. Hoje estou mais centrado, mas olhando para o mundo em que vivemos, a batalha pela sobrevivência no dia-a-dia, fica quase impossível evitar um grito de angustia que vem na forma de HQs incômodas. Este álbum atual concentra algumas narrativas mais intimistas.

Pra você, como esta sendo o lançamento do Zé Gatão pela PADA?

Publicar quadrinhos no Brasil é tarefa hercúlea, principalmente da forma como faço, estas HQs curtas estavam fechadas, amarelando nos meu envelopes fazia anos, velas publicadas pela PADA, num álbum que combina perfeitamente com as características das histórias, é como um copo de água fresca para quem caminha no deserto a muito tempo.

Que outros personagens você criou? Como podemos conhecê-los?

Ao longo destes anos fiz alguns poucos quadrinhos. Eróticos (porque pagavam bem), instrucionais (porque eram encomendados), mas personagem fixo, só dei corpo ao Zé Gatão, existem alguns, mas por enquanto, só dentro da minha cabeça.

Quantas historias do Zé Gatão esperando uma publicação nesse exato momento? Fale sobre o que não saiu pela PADA.

Pelo menos três HQs ficaram de fora deste álbum, isto se falarmos de publicação em papel. Existem duas histórias que podem ser lidas no meu blog (é só procurar nos arquivos), uma outra, bem antiga, pode ser lida no UNIVERSO HQ

Existe uma saga de 400 páginas pronta desde 2003. Há uma editora trabalhando nisto, mas me pediram para não comentar nada até que a coisa se confirme.

Falando de mercado, como você vê atualmente os quadrinhos brasileiros que estão sendo lançados?

Posso parecer chato, mas apesar dos excelentes materiais lançados e a qualidade de seus autores, eu não acho que exista um mercado de quadrinhos no Brasil. Por mercado eu entendo que exista uma demanda muito grande, oferta e procura, artistas bem pagos para produzir obras que façam jus a um salário que o permita viver dignamente disto sem ter que apelar para outras mídias. Sinceramente não vejo isto acontecendo por aqui. Os carinhas que estão obtendo sucesso e dinheiro com esta arte, estão publicando no mercado gringo. Oxalá possamos um dia ter um mercado de quadrinhos no Brasil. Agora, repito, a qualidade do que se tem publicado aqui, é inquestionável.

Em sua opinião, porque os nomes dos quadrinistas brasileiros em destaque na mídia parecem não mudar com o tempo?

Primeiro ponto, sem fazer média, os artistas em destaque na mídia são o que de melhor se pode ter. É sucesso mais que merecido. Algumas condições pode ter favorecido eles, não sei. Segundo ponto, de alguma forma eles tem mudado sim, os que hoje são badalados, não existiam a uns quinze, vinte anos atrás. Os que existiram desde sempre, tem mantido a tradição e a qualidade. O problema é que muitas vezes o público parece viciado, dando a entender que fora alguns bons artistas, não existe nada mais além. Uma coisa parece clara, tanto os de ontem como os de hoje, parecem divulgar e vender muito bem seus produtos.

Falando das Editoras, em sua busca por publicação de suas obras, que atitude dos editores, mas te incomoda?

Olha, antigamente eu via o editor como uma espécie de vilão, um cara que se alimentava do suor dos pobres artistas, era uma visão “esquerdóide”, distorcida que foi alimentada por algumas situações que testemunhei. Claro, alguns realmente eram execráveis, mas olhando pelo lado deles, o que eles querem é o que nós artistas também queremos, ganhar dinheiro com quadrinhos, algo que amamos. Eles não são mecenas, não tem a obrigação de publicar tais e tais obras só porque o autor acha que seu produto é a última coca cola da geladeira. Muitas destas obras não tem o perfil idealizado pela editora. Quando ouvimos um não, levantamos a cabeça e partimos pra outra, até que uma situação favorável se apresente. Se a obra tem qualidade, no momento certo ela terá o seu reconhecimento.

Mas se for para destacar uma falha em alguns editores, seria que alguns se portam como arrogantes senhores absolutos, de opiniões irrefutáveis. Não gostam de determinado trabalho e acham que não serve pra mais ninguém. Não só eles mas alguns jornalistas especializados no assunto. Outro ponto é que alguns nem se dão ao trabalho de responder a um e-mail. Lamentável este tipo de atitude. Mas no geral, os editores com quem trabalhei, foram muito legais. Difícil mesmo são alguns artistas, boa parte dos que conheci, acham que entre o céu e a terra não há nada mais importante do que eles.

O que os artistas nacionais podem fazer para que essa situação se modifique?

Uma pergunta complicada, não há uma resposta segura, se eu tivesse a fórmula, já estaria trabalhando na mudança. Não acho que o problema esteja no editor ou no autor. Como disse acima, o público muitas vezes parece viciado, um só lê mangá, outro só lê super-heróis, outro só gosta de tirinhas, outro ainda só lê se a revista for colorida, isto acaba complicando uma situação que é iníqua desde a sua raiz. Temos que pensar também que os quadrinhos se elitizaram, saíram das bancas e foram para as livrarias, tornou-se um produto com excelente acabamento, mas muito caro. A livraria já come uma boa fatia da torta que caberia ao editor, que por sua vez não pode pagar o que deveria ao autor, e o consumidor tem que fazer opções. É difícil. Mas aos poucos vai se chegando lá. Não se pode é desistir. Neste ponto, os artistas da P.A.D.A. fazem um trabalho digno de nota. No velho estilão punk do faça você mesmo. Se produzir quadrinhos é importante para você independente de sucesso ou grana, eles são o exemplo a ser seguido, o resto é consequência.

Nos fale sobre seu nome, Schloesser, é de familia mesmo ou artistico? Qual a origem?
É de família, por parte do meu avô, que era francês, embora o nome seja alemão, é que ele era de Estrasburgo, ou seja, divisa com a Alemanha.


Ainda com relação a sua família, você é casado? Como é a relação da sua família com seus quadrinhos?

Sou casado a dezesseis anos, e minha esposa, ao contrário de muitas que conheci que desprezavam este “vicio” por parte de seus conjugues, é muito paciente, não só com os quadrinhos que coleciono como também com o tempo que pareço perder com os que crio. Ela sabe, que há potencial para se fazer dinheiro ali, embora saiba que isto depende de uma série de fatores que estão além dos esforços do artista, mas ela é uma grande incentivadora. Ela lê quadrinhos, é fã de Corto Maltese, diz que o personagem é um “gato”. Ainda bem que não sou ciumento.

Meus pais sempre me deram incentivo, eu e meu pai levantamos uma grana para publicar de forma independente o primeiro álbum do Zé Gatão, foi uma dívida que nos deu muita dor de cabeça, mas foi ali que tudo começou. Tenho mais três irmãos, meus fiéis e melhores amigos, todos leitores de quadrinhos, aliás, são eles que investem em minha arte, sempre sou presenteado por eles com algum book art novo na praça, sabe como é, na maioria das vezes esses livros são importados e caros. Que Deus os abençoe.

Que artistas dos quadrinhos influenciam seu trabalho? Tem alguém que você realmente usa como referência?

Sempre afirmo que o triunvirato que dá base ao meu trabalho é composto por Richard Corben, Berni Wrightson e Tanino Liberatore. Sim, Frank Frazetta na pintura. Claro, as influências são muitas, mas estes três, creio, são facilmente reconhecíveis nos meus traços. Eu destacaria não exatamente como referencia, mas como inspiração o Corben, isto por me identificar com seus mundos fantásticos carregados de ação, erotismo e violência, cada vez que vejo um novo trabalho deste senhor, sinto vontade de correr para a prancheta e colocar minhas idéias no papel.

Nesse tempo fazendo quadrinhos, qual a coisa mais chata e mais engraçada que já te aconteceu?

A mais chata? Certa vez, logo que meu primeiro álbum veio a público, fui humilhado publicamente por um importante pesquisador dos quadrinhos tupiniquins dentro de uma Comic Store, ele disse que era muita pretensão eu me lançar com um gibi naqueles moldes e que jamais eu seria famoso com aquilo.

A mais engraçada? Tem a ver com o mesmo álbum. Estava na Livraria Muito Prazer (na época a mais importante Comic Shop de São Paulo) e o proprietário me pediu para mostrar o Zé Gatão para um cara que se dizia quadrinista. O cara, se bem me lembro, era estudante da Escola Panamericana de Arte, parece que criticava tudo e todos, nem os bam-bam-bans gringos escapavam de seus comentários ácidos. Bem, disse eu ao dono da loja, mostre a ele, mas não diga que sou o autor. Certo, respondeu ele. O cara folheou o álbum e foi só elogios rasgados, boa narrativa, boa composição, boa anatomia, etc. Não lembro que comentário ele fez, mas quando pedi um aparte, ele me olhou como se eu fosse um inseto, escutou o que eu dizia, depois se voltou ao dono da loja como se eu não estivesse ali e comprou o livro pedindo para deixar por lá para que o autor assinasse quando aparecesse. Me ignorando, ele foi embora a seguir. Assinei o livro. Acho que o cara nunca soube disso.

Nossa, é muita emoção (risos) Que dica você deixaria para quem tá começando a fazer quadrinhos com o sonho de viver da arte?

Deixando o romantismo de lado, eu diria para ele fazer outra coisa da vida. Isto é claro se o objetivo dele for ganhar dinheiro com comics, para isto há evidentemente formas menos sofridas. Pergunta básica: Você conhece alguém no Brasil que ganhe dinheiro publicando HQs que não seja o pai da Mônica ou o pai do Pererê? Não sei dizer se os cartunistas mais famosos brasileiros vivem de publicar quadrinhos ou se são alimentados pela fama que ganharam sendo mitificados por um período da história recente do Brasil, mas aí já é outra conversa. Não é segredo pra ninguém que as atuais estrelas do quadrinho autorais brasileiros tem publicado primeiro lá fora, onde existe um mercado que ainda resiste. 

Infelizmente aqui, a maioria dos que produzem quadrinhos tem que labutar com outras coisas rentáveis para que possam bancar seus projetos, ou contar com ajuda governamental para ter um trabalho publicado, mas daí a viver disso, ainda acho meio utópico. Vide os rapazes da P.A.D.A. , fazem um trabalho fabuloso com esforço hercúleo, mas cada qual tem outras formas de ganhar a vida. 

Eu faço quadrinhos como catarse, faço porque sou compelido a fazê-lo, faço para minha própria satisfação, se for publicado, ótimo, senão, paciência. É muito frustrante. Seria quase como criar um filho sem emprego e alguém que apóie. Eu vivo de ilustrar livros e aulas de desenho para editoras pequenas. 

Agora, se mesmo depois deste banho de água gelada que eu dei, alguém ainda acha que vale a pena, eu aconselho estudar bastante desenho, anatomia, perspectiva, luz e sombra, entender de narrativa, finalização e perseguir um estilo que seja a sua assinatura. Se criar seu próprio personagem e história, tente algo que seja original, se for leitura de algo já existente, que seja uma leitura bastante particular. Seja asseado com seu material, ao levar para o editor procure ficar cara-a-cara com ele. Seja paciente e perseverante. Por fim se tiver condições de publicar seu próprio projeto e levar para fora, não perca tempo. Eu desejo sorte 

Seu espaço para se expressar livremente, fique a vontade:

Em primeiro lugar, Histórias em Quadrinhos é arte, pura e genuína, compara-la ao cinema ou à literatura, seria desmerecê-la enquanto poderoso e eficiente meio de comunicação peculiar. Resiste à tecnologia, aos modismos. 

A necessidade de contar e de ver/ouvir histórias faz parte do ser humano, por isto não morrerão jamais. Existem formas de se comunicar e contar casos que só são possíveis com este tipo de linguagem. 

Ao fazer um filme, muitos são os envolvidos, roteiristas, atores, diretores, assistentes disso e daquilo e tudo o mais. Um autor de quadrinhos planeja, escreve, esboça, desenha, arte finaliza, coloriza, coloca textos nos balões e pode ainda ele mesmo imprimir, montar seu trabalho e distribuir um mundo criado por ele, cheio de seres característicos, dramas, romances, humor e toda uma gama de situações. Será que preciso dizer mais? 

É isto Michelle. Perdoe algum erro. Muito obrigado pelo prestígio e divulgação.

Abraços.

Eduardo Schloesser.

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Um comentário sobre “Zine Brasil Entrevista Eduardo Schloesser, autor de Zé Gatão.

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