Agência Pública lança reportagem em quadrinhos com investigação sobre exploração sexual infantil na Copa

Referência no cenário do jornalismo independente brasileiro, a Agência Pública de Jornalismo Investigativo publicou na semana passada sua primeira experiência de reportagem em formato de quadrinhos. “Meninas em Jogo“, assinada pela jornalista Andrea Dip e o quadrinista Alexandre de Maio, revela a teia da exploração e do turismo sexual infantil para a Copa do Mundo na cidade de Fortaleza, no Ceará, uma das 12 cidades-sede do mundial.

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A pauta surgiu em março de 2013 durante uma entrevista com a advogada Magnólia Said, que denunciou o aliciamento de meninas no interior da capital cearense. Na matéria, além das diversas fontes consultadas, a repórter e o quadrinista fazem parte da narrativa, com trechos em primeira pessoa.

Andrea Dip explicou ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas que a escolha por apresentar a investigação em quadrinhos possibilitou “ambientar e contextualizar sem expor as meninas, inovar no formato e na linguagem e trazer essa realidade para perto do leitor, porque ele acompanha o processo de apuração, entrevistas e até do encontro com a falta de dados e informações”. pag-meninas em jogo

Embora ainda haja poucos trabalhos do gênero em publicações brasileiras, já estava nos planos da Pública investir em uma reportagem em quadrinhos. O prêmio recebido do VII Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, na Categoria Especial “Violência sexual contra crianças e adolescentes no contexto da Copa do Mundo de 2014″, garantiu o apoio financeiro ao projeto. “Esse era um sonho nosso na Pública, por acreditar que essa é uma linguagem que traz muitos recursos e tem grande potencial”, ressaltou a repórter.

Durante três meses, Dip e de Maio estiveram juntos em Fortaleza para produzir a matéria. Ela cuidou da parte “jornalística”, como definir as fontes, o roteiro das viagens, ir atrás dos dados e das personagens, e ele ficou responsável pelos desenhos, a criação e tradução da matéria para quadrinhos. Em alguns momentos, porém, as funções se mesclavam. “A parte de campo nós fizemos juntos, assim como a estruturação do roteiro da matéria. Ele também deu sugestões de fontes e fez uma parte de campo sozinho (pela noite de Fortaleza) e eu palpitei nos desenhos. Foi uma parceria muito boa, acho que ambos aprendemos bastante”, contou Dip.pagina- meninas em jogo

Segundo ela, o maior desafio da reportagem em quadrinhos é a diferença no processo de produção. “Em uma reportagem escrita, você pesquisa, vai a campo, faz entrevistas, volta para a redação, transcreve tudo, lê e depois escreve: campo, aspas, dados. Com quadrinhos o processo se parece mais com um roteiro de filme que precisa ser criado ao longo da investigação – obviamente sem ficção”. Apesar disso, Dip garante que a alma da reportagem de fôlego – uma apuração criteriosa – continua presente.

O projeto, dividido em prólogo e cinco capítulos, pode ser lido na íntegra no site da Pública.

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