Ex-desenhista de Charlie Hebdo participa da Flip 2015

Depois do sucesso do primeiro volume de “O Árabe do Futuro”, o desenhista Riad Sattouf está lançando na França o tomo 2 da série. Premiado no festival de Angoulême, o principal evento em torno da HQ na França, o livro 1 já foi lançado no Brasil. Ex-colaborador do jornal satírico Charlie Hebdo durante oito anos, Sattouf está de malas prontas para sua primeira viagem ao Brasil, onde ele participará da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, de 1° a 5 de julho.

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Em entrevista exclusiva à RFI Brasil, Riad Sattouf fala sobre “O Árabe do Futuro”:

““O Árabe do Futuro” é uma história em quadrinhos sobre a minha infância no Oriente Médio. Meu pai é de um pequeno vilarejo perto de Homs, na Síria. Bom aluno, ele acabou conseguindo fazer um doutorado na Sorbonne, em Paris. E ao invés de aceitar um convite para ensinar História em Oxford, ele preferiu uma proposta da Líbia sob a ditadura de Muamar Kadafi, pois ele queria retribuir a formação que recebera participando da educação do árabe do amanhã, do “árabe do futuro”. É um termo meio ultrapassado para se falar do futuro do mundo árabe.”

A história dos quadrinhos em formato de livro é vista através dos olhos de um menino de dois anos, o próprio Riad Sattouf, que acompanha a mãe francesa, de cabelos longos, e o pai sírio, idealista. Para o artista, a Síria de hoje, dizimada pela guerra civil, é muito distante de suas experiências pessoais:

“Eu conheci a Síria dos anos 1980, quando o presidente era Hafez al-Assad [pai do atual presidente Bachar al-Assad]. Nunca voltei para lá, portanto não conheço a Síria atual e nem a de antes da guerra. Mas claro que as notícias me comovem, o país que vi quando eu era pequeno agora está sendo destruído pelos conflitos. É tudo o que posso dizer a respeito.”

“Meu povo são os quadrinhos”

379-681187-0-5-o-arabe-do-futuro-uma-juventude-no-oriente-medio-1978-1984Riad Sattouf nasceu em Paris e viveu apenas um curto período de sua vida no Oriente Médio, mas é sempre confrontado com questões sobre como se define:

“É uma pergunta frequente, se sou mais sírio, mais árabe, mais francês… Mas eu mesmo escolhi meu povo, quando eu era adolescente, que é o povo dos autores de histórias em quadrinhos. Não é um povo muito grande, mas estão espalhados pelo mundo todo, e temos a nossa história, as nossas tradições. Por exemplo, eu me sinto muito mais próximo de um quadrinhista japonês ou americano do que da maioria dos meus compatriotas franceses. Como você vê, o meu nacionalismo é muito voltado para o mundo das histórias em quadrinhos.“

Sattouf também falou sobre seu trabalho com o jornal satírico Charlie Hebdo:

“Durante oito anos, publiquei uma tira em Charlie Hebdo, “A Vida Secreta dos Jovens”, com anedotas que eu via no dia-a-dia: uma mãe falando com o filho, um pai dando bronca na filha etc, ou seja, momentos de transmissão de valores. Era isso o que eu fazia, nunca fiz charge política nem ilustrações de jornal. Eu não fazia parte da redação, eu enviava meu trabalho pela internet. Deixei Charlie Hebdo seis meses antes da catástrofe [ataque terrorista em janeiro que matou doze pessoas na redação do jornal, incluindo seis desenhistas], e fui para a revista Nouvel Observateur, hoje Nouvel Obs, e é lá que publico meus desenhos todas as semanas. Os desenhistas de Charlie Hebdo não viviam em torres de marfim, isto é, todos os desenhistas franceses os conheciam, todos já se cruzaram. Eu diria que o conjunto dos desenhistas franceses ficou profundamente traumatizado com o que aconteceu. Eu ainda não consigo analisar os fatos com distanciamento. O que mudou na minha vida com isso é que 100% dos jornalistas me perguntam como isso me afetou e não sei como responder. [riso] Mas sim, é um trauma”

Riad Sattouf nos contou sobre as expectativas em relação ao Brasil, país que ele visita pela primeira vez:

“A primeira imagem que me vem, mesmo se desta vez não vou ver, é a Amazônia. Penso em uma natureza alucinante, é um mito no meu imaginário. Recebo muitos convites de viagem, e recuso a maioria, pois prefiro ficar em casa, desenhando, mas o Brasil não dá para recusar. E também porque, na adolescência, o Brasil para mim também era o país de Max e Igor Cavalera, do Sepultura, que eu adorava, e isso também conta [risos].”

Riad Sattouf também é cineasta. Seu primeiro filme “Les Beaux Gosses” foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores, em Cannes, em 2009, e ganhou o prêmio César de melhor primeiro filme.

Segundo informações do RFI.

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