Homenageado do HQMix 2015, Lourenço Mutarelli comenta seu afastamento do “Mundo dos Quadrinhos”

Um dos principais homenageados do Troféu HQMix, o escritor Lourencio Mutarelli comenta em entrevista seu afastamento e porque não dizer renuncia ao mundo das HQs.

O artista cedeu uma entrevista ao jornalista Guilherme Solari do Bol.com.br comentando a homenagem recebida e as razões que causaram seu afastamento dos quadrinhos nacionais, o proprio é taxativo quando fala de sua carreira nos Quadrinhos: “Eu tenho tentado não participar de nenhum evento de quadrinhos. Se eu sou referência, acho que não vou continuar sendo por muito tempo, porque eu falo muito mal de tudo isso. Vou ser amaldiçoado. Eu não tenho mais relação com esse mundo…”mutarelli-2

“Eu era outra pessoa”, diz Lourenço Mutarelli sobre sua carreira como quadrinista. “Tenho fetiche por essa coisa do cara que sai para comprar cigarro e some. Larga a sua vida antiga inteira para trás”, disse ao UOL o também escritor e ator. Agora, às vésperas de ser homenageado por sua obra no prêmio HQ Mix 2015, que será entregue neste sábado (12) e cujo troféu desse ano é uma escultura do detetive Diomedes, seu personagem, o ícone dos quadrinhos underground realmente parece ter deixado as HQs para ir comprar cigarro e nunca mais voltado.

Com origem nos fanzines oitentistas, o autor publicou quadrinhos como “Transubstanciação”, “A Confluência da Forquilha”, “Eu te Amo Lucimar” e a “Trilogia do Acidente”, com o personagem detetive Diomedes, entre outras. Todas com temática grotesca e ilustradas com um traço que enfatiza de propósito a feiúra.

Ninguém consegue ler os seus quadrinhos confortavelmente, nem ele próprio. “O desenho me incomoda, o que eu fazia antes me incomoda”, disse. “Eu acho que esse traço é bom no sentido que ele é muito íntegro com o universo que ele relatava. Ele dava muito a atmosfera daquele ambiente. Por isso não é ruim. É ruim porque desgasta. De verdade, eu era outra pessoa. Quando eu me lembro do que eu fazia, parece que não era eu, era um cara que eu conhecia. E que eu conhecia vagamente.”

Comentando sobre os premios e homenagens que recebe o artista é enfático ao mostrar razões que o afastam desse meio: “E o próprio Mutarelli é difícil de ser entendido confortavelmente. Apesar de ser um dos mais aclamados quadrinistas brasileiros, diz que odeia fazer e até ler quadrinhos depois que passou a se dedicar à literatura nos anos 2000. Não se vê no apartamento da Vila Mariana (zona sul de SP), onde ele mora com a mulher, o filho e quatro gatas, as dezenas de estatuetas que recebeu, como o Prêmio Ângelo Agostini, o Troféu HQ Mix e o da Bienal Internacional dos Quadrinhos. “Isso não me diz nada. Eu dei todos para as pessoas, não tenho mais nem os prêmios literários que eu ganhei. Não gosto dessa coisa de prêmio e troféu. Gosto quando é em dinheiro, mas esses eu nunca ganho”, conta, rindo e fumando no sofá enquanto acaricia sua gata Mentira, deitada em seu colo. “Eu preciso é de dinheiro. Sou um cara totalmente falido.”diomedes-album

E o jornalista continua o bate-papo: Parte da aversão que Mutarelli sente hoje pelos quadrinhos ele atribui justamente à quantidade de esforço e desgaste para se criar algo no formato. “No quadrinho, você precisa trabalhar no mínimo dez horas por dia desenhando. Escrevendo [romances], eu trabalho menos horas por dia, trabalho com muito mais prazer. E vivo também. Antes, eu não vivia, só trabalhava. A morte do meu pai [em 2001] também tirou um pouco do sentido sobre o que eu fazia. Era muito sobre a relação com ele. Quando ele morreu,  perdi muito da vontade de fazer quadrinhos, mas era o meu trabalho ainda. E também não ganhava nada, a minha mulher que me bancava. Eu ganhava uma merreca.”

mutarelliMutarelli também não se sente confortável no mundo das HQs. “O meio dos quadrinhos sempre me incomodou bastante. Os próprios quadrinistas mesmo. É um meio muito bitolado. Nos quadrinhos, eu me sentia muito deslocado e já não me sinto mais assim agora na literatura. Eu tenho tentado não participar de nenhum evento de quadrinhos. Se eu sou referência, acho que não vou continuar sendo por muito tempo, porque eu falo muito mal de tudo isso. Vou ser amaldiçoado. Eu não tenho mais relação com esse mundo.”

São vários comentários do autor, ele ainda conta sobre seus novos projetos, como um livro que já esta escrevendo há oito anos e que estará sendo terminado provavelmente esse ano. A entrevista fecha com o comentário: “E o que mais Mutarelli tem planejado para o futuro? Nem ele sabe. “Eu nunca tenho uma expectativa muito longa. Eu penso até janeiro, até fevereiro, se eu chegar lá. O que eu quero é continuar escrevendo. Quero acabar esse livro e fazer mais livros. Não tenho uma vontade de fazer nada diferente.” 

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27º Troféu HQMIX acontecerá hoje, dia 12 de Setembro, às 17h, no Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, 05042-000 São Paulo. Segundo informações do próprio autor em seu perfil pessoal no facebook, ele não poderá estar presente, pois estará trabalhando, mas a Lucimar Mutarelli, irá representa-lo.

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