A chamada Nona Arte ainda está distante de ser compreendida nas instâncias públicas de incentivo cultural.
O imbróglio envolvendo o grupo Seres Urbanos e a Secult é sintoma da precariedade das relações do segmento dos quadrinhos com o poder público. A interpretação da nona arte – em todos os âmbitos – é limitada e não consegue superar preconceitos antiquíssimos.

Páginas do projeto “Seres Urbanos”, aprovado em edital Estadual, mas impedido de ter acesso ao recurso por conta de seu conteúdo
Um exemplo é a inclusão das HQs no VIII Edital Ceará de Incentivo às Artes 2011 como uma subcategoria da linguagem literária. Quadrinhos não são um tipo de literatura. É possível você pensar uma HQ sem qualquer elemento verbal. Isso acaso é possível no discurso literário? Num edital público, essa identificação não deixa de ser sintoma de um problema grave. Acaso os autores de projetos de audiovisual gostariam de ser avaliados por uma comissão especializada em teatro? Ou a dança por quem melhor sabe de música? Estas áreas mantém afinidades entre si, como a literatura e as HQs, sem que por isso uma seja tomada por integrante da outra.
Claro, é possível se pensar numa equipe de avaliação capacitada para dar conta de duas ou mais áreas. Mas acaso isso não poria em questão a própria divisão do edital por áreas? O fantasma da literatura ronda as HQs também no que toca as aquisições de títulos por parte dos governos (municipais, estaduais, federais). Valoriza-se as HQs, mas preferindo as adaptações de peças literárias. Ao invés de investir em obras originais, opta-se por um produto por vezes inferior, mas que trás o “selo de qualidade” da literatura. Como se a literatura, por si só, fosse algo bom. É uma expressão daquele pensamento aquela que diz que ler é melhor que ver TV, independente do que você leia e do que você queira assistir. Continuar lendo →
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